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quinta-feira, março 29, 2007
 

















A INVENCÍVEL DONA MARIA

Dona Maria é a mais poderosa força do Jornalismo.

Nada, caro leitor - absolutamente nada - é mais impassível, intransponível, majestoso e imbatível do que a incrível Dona Maria.

Um parêntese (no singular mesmo) para os desavisados. Quem é essa Dona Maria?

Dona Maria é invocada às vezes por Lucas Mendes, o apresentador do programa dominical Manhattan Connection. No meio de um debate político mais espinhoso, Mendes convida o Caio Blinder ou outra pessoa: "explica pra Dona Maria".

Explicar pra Dona Maria, claro, é sempre uma tarefa ingrata¹. Por mais que o jornalista consiga sintetizar uma conjuntura de notícias numa concretude que afeta o cotidiano de todos os brasileiros, por mais que ele corte os jargões e elimine frases prontas e transforme a notícia em algo agradável de ler, por mais que se desdobre em resumir toda a gigantesca importância do fato numa frase simples, não importa.

Dona Maria sempre pode perguntar: "e daí?"

Dona Maria é uma selvagem, uma louca. É uma ninfomaníaca do e-eu-com-isso, que nunca fica satisfeita. Ao mesmo tempo, Dona Maria representa, com todo o vigor, a saúde do ceticismo: aquele pensamentinho inconveniente que fica no fundo da cabeça nos dizendo que, na verdade, quase tudo o que escrevemos, lemos e produzimos têm impacto (quase que) zero sobre nossas vidas. Que mesmo gigantescas tragédias naturais, guerras secretas no Oriente Médio, e eleições presidenciais em grandes países ainda estão - por mais que queiramos pensar o contrário - longe de afetar quantas horas por dia gastamos em cada atividade.

O jornalista do veículo for all (isto é, que não trabalha em veículos especializados, mas que pretende atingir a tudo e a todos) tem seu tipo ideal weberiano, inatingível. Ele busca alcançar esse ponto - agradar Dona Maria! - e nessa aventura ele chega até bem longe. Mas nunca no fim.

Somos todos reféns, irremediáveis reféns da insaciável Dona Maria.


¹ como a Renata.
 

Peixes:
terça-feira, março 27, 2007
 














CULPANDO O PAPA POR SER CRISTÃO

Lá no século XVII, quando ainda não havia PSDB nem Estados Unidos para serem os vilões da história, já existia a Igreja Católica. Claro que poderiam botar a culpa em Portugal, mas Portugal era tipo o Taiwan da época - ninguém sabia se existia ou era apenas piada do seu Joaquim.

Nesses mesmo século XVII foi assinado no que hoje chamamos Alemanha (e meu professor de economia provavelmente chama Alemanha Ocidental) o tratado internacional que leva uma marca ímpar: o de ser, indubitavelmente, o mais superestimado e supervalorizado de todos os tempos.

O tal Tratado de Vestfália (1648), que na verdade são dois mas na verdade são três (isso que dá ficar cinco anos negociando), foi imediatamente - quer dizer, imediatamente pros padrões da época, o que era mais ou menos uns três meses - rejeitado pelo Papa Inocêncio X, um papa que foi tão importante, mas tão importante, que eu li uma vez (agora não vou lembrar quem escreveu) alguém dizendo que seu único feito marcante foi o de ter sido pintado pelo Velásquez.

E por quê? Em boa parte, porque a tal Paz de Vestfália ignorou as demandas do Vaticano. Criou um Eleitorado novo, o que precisaria de aprovação do Papa; reconheceu a Suécia, protestante, como mantenedora do acordo; deu o oquêi pro calvinismo existir, etc. E isso tudo sendo que o processo foi liderado por uma França influente, que ainda por cima era governada por um cardeal, já que o Luís XIV era um pirralho de dez anos.

Então vamos lá: a Paz de Vestfália é um acordo de países europeus, assinado na Alemanha, que não deixou o Papa feliz.

Que notícia recebemos hoje, 359 anos depois! A tal Declaração de Berlim, revelada domingo, é um consenso dos países europeus, assinado em... ahn... onde fica Berlim mesmo?; e que não deixou o Papa feliz!

De acordo com o Mail & Guardian, Bento XVI pensa que a Europa está se desgarrando de suas tradições cristãs, está perdendo fé no próprio futuro, e está em crise demográfica.

De fato, uma Europa laica não pode sobreviver por muito tempo como a conhecemos. O desgarramento e a laicidade geram um vácuo a ser preenchido pelo Islamismo, com ou sem violência. O Professor Carvalho argumentou isto em O Ocidente islamizado, no começo deste mês, bem antes do Papa.

Hoje eu li no Jornal Mural da FAFICH um "artigo de opinião" que só pode ser descrito como um virulento ataque anti-católico, bem à linha editorial Pravda que já é o padrão. Enquanto Igreja Católica for sinônimo de "obscurantismo", "Idade Média" e "atraso", a intelectualidade brasileira não tem muito o que avançar.

E por favor, vamos ter mais cuidado com o termo "União Européia". União Européia é lindo de falar, mas esse troço tem sido basicamente, até hoje, moldado e esculpido pelos interesses franceses e nos termos de Paris. O Reino Unido dá os seus palpites, sempre querendo mais manter a própria autonomia, e agora a Merkel quer descer a lenha também. O resto é resto. Imaginar que Itália, Espanha, Portugal e o resto da cambada estejam todos unidos, cada um com um voto, num processo sem líder e baseado na espontaneidade multilateral dos europeus não dá.

Ah, outra coisa. A "União" Européia depende da Rússia, maior produtor de gás natural do mundo e segundo exportador em petróleo. Ela não cresce sem que Moscou cresça também. E mesmo que a UE não se desenvolva tanto a médio prazo, não interessa, porque se a China continuar crescendo a Rússia também cresce.

Em suma: 1) a história se repete e 2) a UE não está com a bola toda.

Pelo menos é assim que eu enxergo. Você pode continuar enxergando: "nó, maIIIs esse papa é muito radical".
 

Peixes:
terça-feira, março 20, 2007
 














RENATA INGRATA


Boa noite. O Governador do Novo México visitou hoje o Presidente do velho México na Cidade do México.

O Governador do Novo México expôs o problema da imigração de velhos mexicanos novos, que cruzam a fronteira em busca de oportunidades; já o Presidente do velho México está insatifeito com os novos mexicanos velhos que se aposentam e vão morar no velho México, usando recursos da previdência social velhomexicana.

Na busca por um novo velho México, disse o novo Presidente do velho México, precisamos atrair também os novos mexicanos novos, que estudaram nas boas universidades do Novo México. A fuga de cérebros novos de velhos mexicanos está drenando recursos do país, declarou.

Já o governador do Novo México, que é velho, disse que novos problemas velhos devem encontrar velhas soluções mexicanas. A mexicanização do Novo México está causando graves problemas nas velhas escolas, superlotadas, que usam o novo sistema educacional, o que exigiria a construção de novas escolas, usando o sistema velho.

O Presidente do velho México, novo, reafirmou seu compromisso por um México novo, mais mexicano. O Governador do Novo México, saudando as palavras do anfitrião, brindou por um Novo México como nos bons velhos tempos.

Esse papo méxi comigo.

***

Li semana passada, em dois dias, o 1984. Vejam o livro completo, no original. Foi neste link mesmo que li, na tela do PC.

Difícil imaginar que dê pra falar algo sobre o livro que não tenha sido dito antes. Mais em post futuro.

***

E já que estamos falando disso, olhem que adequado.

Há um vídeo recente no YouTube que difama Hillary Clinton em favor do Obama.

Para entender, primeiro assista o comercial da Apple que lançou o Macintosh, e foi lançado realmente em janeiro de 1984. O comercial é do SuperBowl, é super-famoso e tem várias paródias. Ele faz referência ao livro 1984.

Agora, vejam o vídeo anti-Hillary.

Depois, leia esta notícia no site da MTV e esta no Boston Herald, explicando mais (ou não) sobre a controvérsia.
 

Peixes:
quinta-feira, março 15, 2007
 



















O DIA EM QUE QUASE TOMEI TROTE

Holanda, 1944. Uma companhia da Airborne americana ataca uma cidadezinha e a retoma dos nazistas.

Pampulha, 2007. Eu estava na sala de calouros. Faço aula na sala de calouros porque tem aulas em Jornalismo que são oferecidas somente à tarde, e portanto nunca as fiz por causa das Internações Relacionais.

Holanda, 1944. Já à noite, após um intenso dia de batalhas, alguns soldados americanos patrulham uma rua, um quintal, uma casa. Eis que de repente o porão de uma casa se abre...!

Pampulha, 2007. Era uma tarde de quinta-feira, já bem o quarto dia de aula do semestre. Eis senão quando, um grupo de bárbaros ostrogodos do segundo período invade a sala...!

Holanda, 1944. Os soldados americanos apontam as armas para o homem que emerge do porão. Num impulso desesperado, ele ergue as mãos e grita: "Nederlander! Nederlander!"

Pampulha, 2007. Eu me levanto da carteira, ergo os braços e falo: "Cavanelas! Cavanelas!", saindo em segurança.
 

Peixes:
terça-feira, março 13, 2007
 
Lixeira do laboratório 3046 da Faculdade de Medicina da UFMG, ao lado de um aviso...


... close-up do aviso...

... e outra olhada na lixeira.

COLETA SELETIVA ACIRRA DEBATE SOBRE SAÚDE PÚBLICA
Produtores de lixo contaminado, como hospitais e UFMG, se esforçam para gerenciar resíduos

Jogar lixo na lixeira adequada parece tarefa simples, especialmente para brilhantes mentes da Medicina. Mas como mostram as fotografias que acompanham esta matéria, o encaminhamento correto dos resíduos produzidos na FM ainda está longe de ser realidade.

A deposição do lixo na lixeira adequada ganhou importância com dois fatos recentes. Primeiro, os esforços das unidades da UFMG – Campus Pampulha, Faculdade de Medicina e Hospital das Clínicas (HC) – em elaborar e implementar seus Programas de Gestão de Resíduos. Por lei, os programas devem ficar prontos até dezembro deste ano.

Segundo, o anúncio por parte da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) de que irá parar de recolher os resíduos de serviços de saúde. Os produtores desses resíduos - como hospitais privados, o HC e a Faculdade de Medicina - deverão buscar atores privados para sua deposição e tratamento.

DESAFIOS – Segundo a psicóloga Elci Santos, uma das duas responsáveis pela implantação do projeto de gerenciamento de resíduos de serviços de saúde do HC, a legislação ambiental em BH é rigorosa, tanto que por ora existe apenas uma empresa licitada para encaminhamento de resíduos contaminados. Santos é vice-presidente da Copagress (Comissão Permanente de Apoio ao Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde da Prefeitura) e membro da Comissão Técnica de Meio Ambiente da AHMG (Associação de Hospitais de Minas Gerais).

Com o aterro sanitário usado por Belo Horizonte em vias de saturação, a Prefeitura tem agido em dois sentidos. Primeiro, buscar aterros alternativos. Segundo, transferir parte da responsabilidade para os próprios produtores dos resíduos.

Alguns hospitais pequenos de BH, conforme Elci Santos, não tem conseguido os recursos para se adaptar às novas normas de gestão de resíduos, o que tornou-se um fator no fechamento recente de pelo menos quatro deles – Hospital Infantil Santa Terezinha, Santa Lúcia, Hospital Infantil de Urgência São Paulo, e Dom Bosco. “Um impacto alarmante”, conta Elci, “sobre os hospitais que agora terão de atender à demanda daqueles que fecharam”.

A questão é ampla. Vem de Brasília. Por resolução do Ministério do Meio Ambiente, emitida em abril de 2005, cabe aos geradores de resíduos de serviços de saúde o seu gerenciamento, “desde a geração até a disposição final”. A mesma resolução estabelece prazo de até dois anos para os geradores se adequarem às novas normas. Ou seja, ao anunciar que não vai mais recolher o lixo contaminado, a SLU - que é da Prefeitura - está simplesmente de acordo com a determinação federal.

O QUE VEM SENDO FEITO – Gerenciar os resíduos contaminados é um processo complexo e feito em várias etapas, o que exige programas de gestão de resíduos (PGRs). O projeto do PGR do HC, por exemplo, já foi aprovado pela Vigilância Sanitária de BH e pela SLU, e se encontra em fase de implantação.

Para capacitar pessoas para elaborar PGRs, o HC/UFMG já formou duas turmas no curso de aperfeiçoamento Gestão de Resíduos de Serviços de Saúde. “O curso foi bastante elogiado pelos alunos”, conta Elci Santos, “e já existe demanda para criar o curso de especialização”. Alguns dos ex-alunos atualmente produzem programas em clínicas e hospitais do interior do Estado.

Pôr um programa em prática exige duas coisas. A primeira é infra-estrutura. Isso significa lixeiras adequadas, abrigos intermediários para depositar o lixo antes de seu recolhimento, e contêineres para transporte. Segundo a professora Magda Bahia (turma de 1982), responsável pelo PGR na Faculdade de Medicina, a FM já possui os contêineres que precisa. A construção de um novo abrigo intermediário, mais adequado, está sob tutela da Universidade. E a aquisição de lixeiras novas e em quantidade apropriada está em andamento.

A contratação de serviços de encaminhamento de resíduos também faz parte dessa infra-estrutura. O Hospital das Clínicas, por exemplo, já usa atores privados para encaminhar, todo mês, meia tonelada de resíduos quimioterápicos – uma pequena fração do seu total de resíduos químicos.

O QUE VOCÊ PODE FAZER – É claro que a administração do lixo contaminado não pode ser feita simplesmente escrevendo programas e comprando lixeiras. É aí que entra a segunda parte: educação continuada de todas as pessoas – alunos, professores e funcionários – para que saibam depositar o lixo adequadamente.

Ou isso, ou continuaremos tendo exemplos como o das fotos que acompanham esta matéria.

 

Peixes:
sábado, março 10, 2007
 

O FALSO PROBLEMA DO INDIVIDUALISMO

Um ensaio sobre a transformação de palavras


MÊS PASSADO O técnico do Bayern de Munique criticou o excesso de individualismo do time. Segundo o UOL Esporte, Ottmar Hitzfeld disse que os jogadores não agem como equipe.

Não temos como saber se a notícia foi adequadamente traduzida e se realmente o que Hitzfeld disse foi “individualismo” em alemão. Contudo, a notícia é clara: o individualismo é algo ruim, prejudicial ao desempenho do time - ao menos em excesso.

Hitzfeld não está sozinho. Aqui mesmo no Brasil existem milhões de indivíduos que criticam o individualismo desta ou daquela pessoa, ou a “cultura do individualismo” hoje fomentada por meios de comunicação de massa e pelo modo de produção capitalista. Vejamos alguns exemplos.

RELIGIÃO DO INDIVÍDUO – Um site chamado Cultura Brasil traz um texto sobre “A incrível religião do individualismo” - “esta secular e perversa estrutura individualista se reproduz como um câncer, obliterando a razão, as emoções e os sentimentos das pessoas”. É uma religião satanista – no ritualismo demente da Incrível Religião do Individualismo, o burguês médio acende uma vela para si mesmo e outra para Mammon”.

Além de satanista, o individualismo é letárgico. Nesta sinopse do livro “A Era do Vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo”, constatamos uma nostalgia: a revolta dos anos de expansão foi substituída pela indiferença e pelo narcisismo”. Ou seja, a maciça cultura do indivíduo suplantou hoje toda a revolta. Não importa o que está acontecendo na Dinamarca. Além disso, vemos no título do livro uma interessante equação entre o individualismo e uma era de vazio. Ou seja, não é apenas letárgico e satanista, mas também nos deixa no vácuo.

DOENÇA DO SOCIÓLOGO - Tem mais. O individualismo, além de religião, é doença. Neste artigo acadêmico, vemos que “Taylor (1991, in Haste, 1998) refere-se a estes sintomas como fruto das três doenças da modernidade: individualismo, alienação e instrumentalismo”. Uma doença que nos deixa irracionais. Em notícia para a agência Carta Maior, vemos que um pesquisador da PUC-SP, Ladislau Dowbor, realça a irracionalidade e o individualismo paulistanos. Segundo a pesquisa, o paulistano é um irracional, porque compra carro em vez de se mobilizar em grupos para exigir transporte coletivo.

A manchete não se aplica totalmente à tese – o pesquisador diz que a vida está sendo idiota (p.62) e que há irracionalidade na distribuição de riquezas e na acumulação de esforços (ps. 58-59), mas não chega a dizer que o paulistano é irracional.

Para afirmar isso, seria preciso não ter lido nada de Teoria dos Jogos. Os dilemas de ação coletiva nunca implicaram irracionalidade. A sociologia ensina: os indivíduos, cada um agindo racionalmente, escolhem o melhor curso de ação para si. Quando não há incentivos para colaborarem uns com os outros, realizam ações “egoístas”. O resultado agregado dessas ações egoístas pode ser sub-ótimo – isto é, não é o melhor possível. Mas os indivíduos não agem assim porque são burros, apenas porque a estrutura de incentivos os impele a fazê-lo.

É a mesma coisa com corridas armamentistas. Os países não gastam dinheiro com armas porque são idiotas, mas porque é difícil confiar uns nos outros. Da mesma forma: os paulistanos não compram carros porque são burros, mas porque é mais fácil e mais crível resolver o problema comprando um automóvel do que esperar por alguma possível e eventual ação do governo em providenciar transporte público adequado. Comprar um carro surte resultado imediato; ações políticas no Brasil, não. E quando você precisa ir trabalhar e deixar filhos na escola, a escolha é fácil. E nada irracional.

ATÉ NA TEORIA – Não é só em notícias sobre esportes ou trânsito que vemos críticas ao individualismo. Até mesmo no tratamento teórico tenta-se defini-lo como algo ruim. Para o jornalista Josué Ebenezer Soares, “podemos definir o individualismo como a teoria que faz prevalecer o direito individual sobre o coletivo”. De fato, “é o que ficou conhecido no Brasil como a "Lei de Gérson”. Ou seja, os individualistas não apenas fazem o que é melhor para eles, como o fazem ativamente em detrimento do grupo. É o chamado “jogo de soma zero”, o pensamento segundo o qual ou a ação beneficia o indivíduo ou o grupo, não dá pra ser boa pros dois.

Já o artigo “O individualismo na cultura moderna” afirma que “o individualismo moderno é determinado pela própria cultura moderna homogeneizante, e sua ideologia, e não pelas particularidades individuais”. Ou seja, o individualismo não é sequer individual. É como se fosse algo que oprime as pessoas e as obriga a serem assim, e não que elas são individualistas porque querem.

AONDE ISSO VAI CHEGAR – Existe um claro movimento cultural e acadêmico, já praticamente consolidado, de afirmar que individualismo é algo ruim. Mais do que isso, de afirmar que individualismo e egoísmo são a mesma coisa.

Ora, se o individualismo é o mesmo que egoísmo, e portanto ruim, não devemos pensar dessa forma. O caminho mais justo e correto deve estar no oposto, o coletivismo. Não é a toa que muitos dos críticos do individualismo são partidários de esquerda. Afinal, eles propõem uma sociedade onde há pouco ou nenhum espaço para o indivíduo, na qual as ações são centralizadas por um Estado forte e não existe propriedade privada – algo ruim e egoísta.

Em 1984, George Orwell descreve uma sociedade totalitária que se sustentava em parte por causa da Novilíngua, um idioma que ia suprimindo palavras que poderiam articular pensamentos revolucionários. Este é o movimento feito com a palavra “individualismo”. Ao fazer com que ela tenha o mesmo significado de “egoísmo”, o movimento constrange as pessoas a não pensarem de forma individualista (porque é errado), deixando apenas a alternativa coletivista.

E NÃO É? – O médico Flávio Gikovate produziu um artigo chamado “Individualismo não é egoísmo”, no qual esclarece a diferença entre os conceitos. Seu foco, contudo, é diferente do deste texto, e acaba iniciando uma outra tese sobre egoístas e altruístas e comportamentos psicológicos. Vá lá, mas aqui não é o ponto.

Aqui pretendo apenas chamar atenção para a Novilíngua contemporânea, na qual pensamos cada vez mais em termos coletivistas e somos levados a sentir culpa sempre que cometemos o terrível pecado de pensar em nós mesmos.

Você já reparou que não reivindicamos mais justiça, e sim “justiça social”? Que cobramos das empresas não responsabilidade, mas “responsabilidade social”? Ora, eu sequer estudo Comunicação, mas sim “Comunicação Social”. Por quê? Porque o curso precisa ter esse “social” no nome?

Até mesmo o tal pesquisador Ladislau Dowbor tenta vender seu peixe dizendo que os paulistanos estão perdendo horas preciosas de tempo social. Porque precisa ser assim? Porque os paulistanos não poderiam passar esse tempo consigo mesmos?

PALAVRA FINAL – Acho pertinente terminar este texto com uma citação. Veja se você se identifica com ela.

O funesto conceito “individualismo” é um conceito político, moral e social que exprime a afirmação e a independência do indivíduo (...) É um amor extremo à independência em todas as suas formas, onde predominam os direitos mas não os deveres. (..). Os indivíduos possuídos pois, por esta religião individualista, munidos de ódio ao mundo, procuram destruir tudo aquilo transpire uma gota de ordem.(..) Esta forma aberrante e antinatural de interpretar a vida está a ganhar uma dimensão nunca imaginada, só compreensível num ambiente de alienação total face à realidade da vida (...) (grifos meus)

Achou interessante? Pois bem, esse texto é do site do Partido Nacional Renovador, um partido português pra lá de, bem, reaça. Talvez o individualismo não seja tão ruim, se está contra eles.

 

Peixes:
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