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segunda-feira, dezembro 31, 2007
 
O HOMEM DO ANO

Tropa de Elite não é o melhor filme brasileiro do ano, tampouco o melhor filme brasileiro de todos os tempos. Não é sequer o melhor filme de todos os tempos. É, isso sim, a maior obra de arte já produzida pela Humanidade.

Pelo menos foi a impressão que tive na única vez que em vi o filme - no cinema, poucos dias após a estréia, em outubro. Que em menos de dois meses o filme tenha inspirado um sem-número de paródias (verdade, a maioria bem sem graça) e inscrito dezenas de frases na cultura pop brasileira diz muito sobre o quanto ele é divertido e original. Que tenha sido capa de revista (Veja, Babaquice Capital, etc.) e motivado vários debates sobre pelo menos três assuntos diz muito sobre o quanto o filme é verdadeiro (não apenas autêntico.) Os três temas são: i) a responsabilidade dos consumidores de drogas pela violência, ii) a corrupção / truculência / má-conduta policial, iii) o absoluto caos da insegurança pública no Brasil.

RESPONSABILIDADE - Maconheiro é tudo maconheiro. Mas maconheiros não são inofensivos. Maconheiros têm ídolos, respeitados e bem-quistos ao menos em seus respectivos nichos (Bob Marley, Marcelo D2, etc.) Maconheiros têm slogans. Têm seus ativistas. Têm até seu deputado, Fernando Gabeira. O maconhismo é uma força política no Brasil, mais forte do que várias outras (por exemplo, é mais forte, ou ao menos mais tolerado, do que a causa anti-aborto).

A grande sacada dos maconhistas é o "se eu fumo ninguém tem nada com isso". Mentira. Quem fuma maconha financia o tráfico. Financia as disputas entre traficantes por território e carregamentos. Financia o bolsa-crime, dando salário para a criança que sai da escola e vai trabalhar no tráfico. Financia as armas: o disparo contra a facção rival, contra o cara que cometeu um vacilo, contra o policial, contra o cidadão comum. E também a bala perdida.

Belo Horizonte é uma das capitas mais violentas do Brasil, e das cidades mais violentas do mundo. É pior que São Paulo. É pau-a-pau com o Rio. Nossa taxa de homicídios em 2004 foi de 55,1; no Rio é 57,2. (Fonte). O maconheiro mineiro não vive na roça pacífica que ele pensa que vive. É por isso que o maconhista mineiro é mais cruel que os outros. Porque sua crença ignorante é ainda mais hipócrita, ainda mais falsa.

CORRUPÇÃO E TRUCULÊNCIA - Tropa de Elite não é um filme sobre heróis. Por um lado, Neto e Matias são incorruptíveis, batalhadores, e se esforçam para galgar largos e difíceis degraus para subir na vida. Por outro, Nascimento é um torturador, hipocondríaco, e mata também sem motivo. Põe na conta do Papa. Quando faz isso, age como quem põe a conta da segurança no Brasil nos EUA, porque são o país que mais consome drogas, ou "na sociedade", o que não significa porra nenhuma.

Li um blog uma vez (não lembro qual) que me alertou para um doublethink perigoso, que é o doublethink da Veja. A revista repete esse doublethink na edição de fim de ano. É dizer: a culpa da violência não é da sociedade, mas de criminosos individuais. Ok. Mas também dizer: a tortura e a truculência do policial é culpa do Estado, que o desampara, e não tanto do policial. Aí não dá. A violência é sempre de responsabilidade de indivíduos (um pleonasmo), de um lado ou do outro.

Neto não vive o suficiente para fazer coisas realmente heróicas. Matias entra no jogo de vinganças do BOPE e se auto-declara carrasco. Contrariando as opções excludentes de Nascimento, ele foi pra guerra. Mas também se corrompeu.

CAOS - Olavão está certo quando diz que a educação no Brasil só se distingüe do crime organizado porque o crime é organizado. Por exemplo, na FAFICH eu tenho um professor alegadamente anti-racista. Desses que levam o bandeirão anti-racista, abraçam a causa mesmo. Tudo bem. Mas...

Esse mesmo professor, juntamente com zilhões de inteléquituais dessipaiz, quer nos fazer crer que i) o problema da segurança pública não é tão ruim quanto a Lídia, sensacionalista, diz que é, ii) a politização/securitização do problema nubla e esconde outras "questões sociais" (cof cof cof cof) verdadeiramente mais importantes.

Primeiro, o problema da segurança pública no Brasil não é ruim como diz a Lídia. Verdade. É muito, muito pior. Cinquënta mil homicídios por ano é não apenas pior que o Iraque. É guerra. Qualquer retardado que se apressou em dizer que existe ou existia guerra civil no Iraque é obrigado a declará-la também no Brasil.

Segundo, esse professor anti-racista, ao colocar a segurança em segundo plano (ou terceiro, quarto...) comete ele mesmo uma atitude racista. Porque, usando uma lente anti-racista, podemos argumentar que uma das razões pelas quais a segurança pública não é ainda mais discutida é EXATAMENTE o racismo. De novo citando o Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros:

- "Os avanços da violência homicida das últimas décadas no Brasil são explicados exclusivamente pelo aumento dos homicídios contra a juventude. Se as taxas de homicídio entre os jovens pularam de 30,0 em 1980 para 51,7 (em 100.000 jovens) em 2004, as taxas para o restante da população até caíram levemente, passando de 21,3 para 20,8 (em 100.000 habitantes)."

- 92% das vítimas são do sexo masculino, e “a população negra teve 73% de vítimas de homicídio a mais do que a população branca"

- enquanto a taxa média nacional anual de homicídios é de 27 (por 100 mil), ela chega a 65 entre jovens de 20 a 24 anos - a faixa mais expressiva. E é na faixa dos 14 aos 17 anos que a taxa vem crescendo mais aceleradamente. Os homicídios de pessoas com 14 anos, por exemplo, cresceram 63% entre 1994 e 2004 (lembrando que a taxa de homicídios totais subiu 48,4% no mesmo período).

Isto é, dos 50 mil homicídios por ano, boa parte das vítimas são homens, jovens, negros. Exatamente as pessoas desamparadas pelas quais o professor herói do anti-racismo deveria lutar.

O esquerdismo não se sustenta nunca, porque é sempre desonesto, e por isso sempre contraditório. Não dá para ser anti-racista e ao mesmo tempo dizer que o debate sobre segurança pública foi criado no governo FHC para esconder o crescente desemprego. Não dá.

CONCLUSÃO - E qualquer exercício de honestidade por parte de um esquerdista vai acabar criando algo que refuta suas idéias. O melhor texto sobre Tropa de Elite é do Olavão:

"Agora, José Padilha é crucificado pela esquerda porque em “Tropa de Elite”, pela primeira vez, o cinema nacional mostra a violência carioca pelo ponto de vista da polícia, que é o dos cidadãos comuns, e não pelo dos bandidos, que é o da classe artística, dos “formadores de opinião” e do beautiful people esquerdista em geral. Padilha não fez isso porque queria, mas porque, tendo optado por uma narrativa realista, teve de ceder à coerência interna entre os vários elementos factuais em jogo, mostrando as coisas como elas aparecem aos olhos de qualquer pessoa que esteja boa da cabeça e não tenha se intoxicado nem de cocaína nem de Michel Foucault, como o fazem aqueles três grupos de criaturas maravilhosas. O resultado é que no seu filme os traficantes são assassinos sanguinários, os policiais corruptos são policiais corruptos, os policiais bons são homens honestos à beira de um ataque de nervos, os estudantes esquerdistas metidos a salvadores do país são clientes que alimentam o narcotráfico e mantêm o país na m.... Todo mundo sabe que a vida é assim, e é por isso que instintivamente todo mundo acha que descer a mão em bandidos, por ilegal que seja, é incomparavelmente menos grave do que o imenso concurso de crimes – guerrilha urbana, homicídios, seqüestros, assaltos, contrabando, corrupção política – que o narcotráfico traz consigo".

E é por isso tudo que Capitão Nascimento é o homem do ano. Não porque ele põe na conta do Papa. Mas porque mostra que os esquerdistas vivem pondo na conta dos outros.
 

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