
A INVENCÍVEL DONA MARIA
Dona Maria é a mais poderosa força do Jornalismo.
Nada, caro leitor - absolutamente nada - é mais impassível, intransponível, majestoso e imbatível do que a incrível Dona Maria.
Um parêntese (no singular mesmo) para os desavisados. Quem é essa Dona Maria?
Dona Maria é invocada às vezes por Lucas Mendes, o apresentador do programa dominical
Manhattan Connection. No meio de um debate político mais espinhoso, Mendes convida o Caio Blinder ou outra pessoa: "explica pra Dona Maria".
Explicar pra Dona Maria, claro, é sempre uma tarefa ingrata¹. Por mais que o jornalista consiga sintetizar uma conjuntura de notícias numa concretude que afeta o cotidiano de todos os brasileiros, por mais que ele corte os jargões e elimine frases prontas e transforme a notícia em algo agradável de ler, por mais que se desdobre em resumir toda a gigantesca importância do fato numa frase simples, não importa.
Dona Maria sempre pode perguntar: "e daí?"
Dona Maria é uma selvagem, uma louca. É uma ninfomaníaca do
e-eu-com-isso, que nunca fica satisfeita. Ao mesmo tempo, Dona Maria representa, com todo o vigor, a saúde do ceticismo: aquele pensamentinho inconveniente que fica no fundo da cabeça nos dizendo que, na verdade, quase tudo o que escrevemos, lemos e produzimos têm impacto (quase que) zero sobre nossas vidas. Que mesmo gigantescas tragédias naturais, guerras secretas no Oriente Médio, e eleições presidenciais em grandes países ainda estão - por mais que queiramos pensar o contrário - longe de afetar quantas horas por dia gastamos em cada atividade.
O jornalista do veículo
for all (isto é, que não trabalha em veículos especializados, mas que pretende atingir a tudo e a todos) tem seu tipo ideal weberiano, inatingível. Ele busca alcançar esse ponto - agradar Dona Maria! - e nessa aventura ele chega até bem longe. Mas nunca no fim.
Somos todos reféns, irremediáveis reféns da insaciável Dona Maria.
¹
como a Renata.
Peixes: