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sábado, março 10, 2007
 

O FALSO PROBLEMA DO INDIVIDUALISMO

Um ensaio sobre a transformação de palavras


MÊS PASSADO O técnico do Bayern de Munique criticou o excesso de individualismo do time. Segundo o UOL Esporte, Ottmar Hitzfeld disse que os jogadores não agem como equipe.

Não temos como saber se a notícia foi adequadamente traduzida e se realmente o que Hitzfeld disse foi “individualismo” em alemão. Contudo, a notícia é clara: o individualismo é algo ruim, prejudicial ao desempenho do time - ao menos em excesso.

Hitzfeld não está sozinho. Aqui mesmo no Brasil existem milhões de indivíduos que criticam o individualismo desta ou daquela pessoa, ou a “cultura do individualismo” hoje fomentada por meios de comunicação de massa e pelo modo de produção capitalista. Vejamos alguns exemplos.

RELIGIÃO DO INDIVÍDUO – Um site chamado Cultura Brasil traz um texto sobre “A incrível religião do individualismo” - “esta secular e perversa estrutura individualista se reproduz como um câncer, obliterando a razão, as emoções e os sentimentos das pessoas”. É uma religião satanista – no ritualismo demente da Incrível Religião do Individualismo, o burguês médio acende uma vela para si mesmo e outra para Mammon”.

Além de satanista, o individualismo é letárgico. Nesta sinopse do livro “A Era do Vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo”, constatamos uma nostalgia: a revolta dos anos de expansão foi substituída pela indiferença e pelo narcisismo”. Ou seja, a maciça cultura do indivíduo suplantou hoje toda a revolta. Não importa o que está acontecendo na Dinamarca. Além disso, vemos no título do livro uma interessante equação entre o individualismo e uma era de vazio. Ou seja, não é apenas letárgico e satanista, mas também nos deixa no vácuo.

DOENÇA DO SOCIÓLOGO - Tem mais. O individualismo, além de religião, é doença. Neste artigo acadêmico, vemos que “Taylor (1991, in Haste, 1998) refere-se a estes sintomas como fruto das três doenças da modernidade: individualismo, alienação e instrumentalismo”. Uma doença que nos deixa irracionais. Em notícia para a agência Carta Maior, vemos que um pesquisador da PUC-SP, Ladislau Dowbor, realça a irracionalidade e o individualismo paulistanos. Segundo a pesquisa, o paulistano é um irracional, porque compra carro em vez de se mobilizar em grupos para exigir transporte coletivo.

A manchete não se aplica totalmente à tese – o pesquisador diz que a vida está sendo idiota (p.62) e que há irracionalidade na distribuição de riquezas e na acumulação de esforços (ps. 58-59), mas não chega a dizer que o paulistano é irracional.

Para afirmar isso, seria preciso não ter lido nada de Teoria dos Jogos. Os dilemas de ação coletiva nunca implicaram irracionalidade. A sociologia ensina: os indivíduos, cada um agindo racionalmente, escolhem o melhor curso de ação para si. Quando não há incentivos para colaborarem uns com os outros, realizam ações “egoístas”. O resultado agregado dessas ações egoístas pode ser sub-ótimo – isto é, não é o melhor possível. Mas os indivíduos não agem assim porque são burros, apenas porque a estrutura de incentivos os impele a fazê-lo.

É a mesma coisa com corridas armamentistas. Os países não gastam dinheiro com armas porque são idiotas, mas porque é difícil confiar uns nos outros. Da mesma forma: os paulistanos não compram carros porque são burros, mas porque é mais fácil e mais crível resolver o problema comprando um automóvel do que esperar por alguma possível e eventual ação do governo em providenciar transporte público adequado. Comprar um carro surte resultado imediato; ações políticas no Brasil, não. E quando você precisa ir trabalhar e deixar filhos na escola, a escolha é fácil. E nada irracional.

ATÉ NA TEORIA – Não é só em notícias sobre esportes ou trânsito que vemos críticas ao individualismo. Até mesmo no tratamento teórico tenta-se defini-lo como algo ruim. Para o jornalista Josué Ebenezer Soares, “podemos definir o individualismo como a teoria que faz prevalecer o direito individual sobre o coletivo”. De fato, “é o que ficou conhecido no Brasil como a "Lei de Gérson”. Ou seja, os individualistas não apenas fazem o que é melhor para eles, como o fazem ativamente em detrimento do grupo. É o chamado “jogo de soma zero”, o pensamento segundo o qual ou a ação beneficia o indivíduo ou o grupo, não dá pra ser boa pros dois.

Já o artigo “O individualismo na cultura moderna” afirma que “o individualismo moderno é determinado pela própria cultura moderna homogeneizante, e sua ideologia, e não pelas particularidades individuais”. Ou seja, o individualismo não é sequer individual. É como se fosse algo que oprime as pessoas e as obriga a serem assim, e não que elas são individualistas porque querem.

AONDE ISSO VAI CHEGAR – Existe um claro movimento cultural e acadêmico, já praticamente consolidado, de afirmar que individualismo é algo ruim. Mais do que isso, de afirmar que individualismo e egoísmo são a mesma coisa.

Ora, se o individualismo é o mesmo que egoísmo, e portanto ruim, não devemos pensar dessa forma. O caminho mais justo e correto deve estar no oposto, o coletivismo. Não é a toa que muitos dos críticos do individualismo são partidários de esquerda. Afinal, eles propõem uma sociedade onde há pouco ou nenhum espaço para o indivíduo, na qual as ações são centralizadas por um Estado forte e não existe propriedade privada – algo ruim e egoísta.

Em 1984, George Orwell descreve uma sociedade totalitária que se sustentava em parte por causa da Novilíngua, um idioma que ia suprimindo palavras que poderiam articular pensamentos revolucionários. Este é o movimento feito com a palavra “individualismo”. Ao fazer com que ela tenha o mesmo significado de “egoísmo”, o movimento constrange as pessoas a não pensarem de forma individualista (porque é errado), deixando apenas a alternativa coletivista.

E NÃO É? – O médico Flávio Gikovate produziu um artigo chamado “Individualismo não é egoísmo”, no qual esclarece a diferença entre os conceitos. Seu foco, contudo, é diferente do deste texto, e acaba iniciando uma outra tese sobre egoístas e altruístas e comportamentos psicológicos. Vá lá, mas aqui não é o ponto.

Aqui pretendo apenas chamar atenção para a Novilíngua contemporânea, na qual pensamos cada vez mais em termos coletivistas e somos levados a sentir culpa sempre que cometemos o terrível pecado de pensar em nós mesmos.

Você já reparou que não reivindicamos mais justiça, e sim “justiça social”? Que cobramos das empresas não responsabilidade, mas “responsabilidade social”? Ora, eu sequer estudo Comunicação, mas sim “Comunicação Social”. Por quê? Porque o curso precisa ter esse “social” no nome?

Até mesmo o tal pesquisador Ladislau Dowbor tenta vender seu peixe dizendo que os paulistanos estão perdendo horas preciosas de tempo social. Porque precisa ser assim? Porque os paulistanos não poderiam passar esse tempo consigo mesmos?

PALAVRA FINAL – Acho pertinente terminar este texto com uma citação. Veja se você se identifica com ela.

O funesto conceito “individualismo” é um conceito político, moral e social que exprime a afirmação e a independência do indivíduo (...) É um amor extremo à independência em todas as suas formas, onde predominam os direitos mas não os deveres. (..). Os indivíduos possuídos pois, por esta religião individualista, munidos de ódio ao mundo, procuram destruir tudo aquilo transpire uma gota de ordem.(..) Esta forma aberrante e antinatural de interpretar a vida está a ganhar uma dimensão nunca imaginada, só compreensível num ambiente de alienação total face à realidade da vida (...) (grifos meus)

Achou interessante? Pois bem, esse texto é do site do Partido Nacional Renovador, um partido português pra lá de, bem, reaça. Talvez o individualismo não seja tão ruim, se está contra eles.

 

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