Quando renunciar ao cargo no dia 27 do mês que vem, contudo, o escocês Tony Blair terá direito a um discurso com muitas realizações. Em dez anos de serviço, ele criou o salário mínimo, aumentou em muito os gastos em saúde e educação, não aumentou o imposto de renda, e introduziu taxas na educação universitária - e a economia se manteve em crescimento.
Blair também realizou reformas constitucionais chamadas “devolutions”, que basicamente concedem autonomia administrativa à Escócia e à Irlanda do Norte - nesta última, com dramáticos resultados para a paz e a segurança. Cabe explicar que “devolution” não é independência - a autoridade administrativa pode voltar para Londres a qualquer momento.
No campo de defesa e política externa, duas grandes façanhas: uma muito saudável e a outra controversa. A primeira foi decidir pela continuação do deterrente nuclear britânico – o único do mundo composto apenas de submarinos (quatro). A segunda, bem, a segunda foi um lamaçal chamado Iraque.
Lluís Bassets, jornalista do El País, escreveu que Blair merece a glória, mas pecou por querer ser melhor que Churchill: deu um passo maior do que as pernas ao imaginar a Cruzada de seu tempo, juntando-se aos americanos contra os tiranos de hoje.
Não surpreende, portanto, que aquele que em ‘97 era o primeiro-ministro mais popular da história hoje tenha o 3º mais baixo índice de aprovação. Num mundo de relativos e áreas cinzentas, onde Bem e Mal são considerados coisa de criança, não há espaço para cruzadas. Blair não conseguiu fazer com que as pessoas digam “Reino Unido”. Mas definitivamente mostrou a que veio.
** Cedê Silva