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segunda-feira, janeiro 09, 2006
 

A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA


Meu avô perdeu a memória.

Ele não reconhece mais nem os próprios filhos.

Isso não é mais um impacto pra mim. Eu descobri tem uns treze meses. Foi perto do Natal do ano retrasado. Eu não visito mais a cidade dos meus avós com a mesma freqüência de antes; as festas de fim de ano são uma das pouquíssimas ocasiões. E foi numa dessas visitas casuais que eu descobri o estado do meu vô: ele não faz mais as mesmas piadinhas de sempre com meu nome ("Frederico, nasceu pobre e ficou rico!", etc.) quando nos recebe. Na verdade, não chama ninguém pelo nome.

Eu sempre gostei de ver a vida como uma grande narrativa épica, na qual "o mundo é infinitamente misterioso e interessante". Desde criança, vesti a pele de inúmeros heróis, salvei incontáveis mundos e vivi um sem-número de aventuras - mesmo em ocasiões simples como se arrumar para uma festa ouvindo música (e depois tantas mais durante a festa em si).

Mas no final, what does this ammounts to? Pra onde essas inenarráveis sagas nos levam? Após desbravar mares e enfrentar medusas, para onde a gente vai? Qual o destino dessa odisséia toda?

Minha resposta formulada mês passado em conversa com uma amiga era a de que o objetivo da vida é a própria narrativa. Como em Shakespeare, a vida é uma peça. É pra isso que vivemos: para construir uma narrativa, uma história tão grandiosa e longa que não pode ser resumida adequadamente em texto, mas no impacto que exercemos sobre outras pessoas. Nascemos para fazer os outros felizes, e nossas ações servem, dentre outras coisas, para fazerem os outros sentirem que isto é real - que não é uma peça, que elas não estão sozinhas; mas que todos nós somos atores e personagens num grande palco infinitamente misterioso e interessante.

Evidentemente, tudo isto só pode ser adequadamente aproveitado - com efeito, tudo isto só pode fazer sentido - se existir algo minimamente duradouro.

Memória.

É a única forma de aprendermos com nossos erros. É a unica forma de construirmos sagas cada vez mais elaboradas. A única forma de adicionarmos personagens curiosos e intrigantes.

E é o único pré-requisito para tecermos uma história. Para que a história se mova adiante - seja ao pé da letra, seja para recolhermos flashbacks - precisamos construir sobre o que já existe. Capítulo após capítulo, nós confiamos na memória para construirmos uma narrativa.

A morte não nos tira o sentido. A memória da nossa vida permanece - nas pessoas que nos conheceram, nas nossas obras, em nossas realizações, em cada pessoa para a qual já contamos um evento de nossa vida.

Mas quando a própria memória se vai - qual é o sentido?



***



Quando nossas memórias nos enganam ou não mais existem, de que vale a nossa vida? Como assegurar que você é você mesmo, se você não sabe a quem pertencem essas memórias que ficam te dizendo o que você fez ou quem você conhece? Quem somos - senão a caixinha de memórias que temos embaixo da cama?

Uma vida sem memória é uma vida falsa. Vidas falsas não podem fazer as pessoas felizes. Ficar em coma sonhando para sempre; ou sentado numa casa que você não conhece com alguém que você não conhece cuidando de você, recebendo visita desconhecida após visita desconhecida.

Como sabemos que isto é real? Se o sentido da vida é fazer outras pessoas felizes, como sabermos que estamos fazendo isso e não presos em nossa própria caixinha de memórias cada vez mais vazia - como uma caixa de Pandora que corre o risco de ficar ainda pior porque não nos lembramos sequer de nossos momentos de infância quando aprendemos a decifrar as cores?

Como saber pra quem a gente poderia telefonar as duas da manhã e pedir pra nos contar que isto é real, que a gente existe pra elas, que as deixamos felizes...?

Talvez a realidade esteja na escolha que fazemos. Não apenas na escolha de para quem ligar: na consideração de quem atenderia, quem levaria a sério, quem pediria para conversar no outro dia e quem, finalmente, levantaria da cama e chamaria para uma conversa imediata face-a-face.

Mas na escolha de ligar ou não.



***



Meu avô não pode reviver sua saga, afinal. Na verdade, não pode mais viver saga nenhuma. Essa experiência ele não pode mais ter, porque não é concebível viver sem memória.

Mas isso não tira o sentido. Embora ele não possa mais reviver suas incontáveis epopéias, ele deixou marcas indeléveis em pessoas que ainda tem memória. E essas pessoas continuarão os desdobramentos dos capítulos da narrativa do meu avô com outras pessoas, que farão o mesmo em outras, e assim por diante.

No mínimo dos mínimos, meu avô criou meu pai. E meu pai me criou. E eu sei que estou aqui para isso: viver uma aventura tão indescritivelmente épica e tão maravilhosamente deslumbrante que não pode ser narrada em palavras.
 

Peixes:
Comments:
VIDA LONGA, À NOSSOS HERÓIS!!!!

Um poema, um conto, uma narrativa, uma epopéia; Façamos a nossa assim com "Eles" a deles.
E do fundo de nossos corações, brademos alto um "Viva!!!" a estes a quem a história nos é tão próxima e intima que a tomamos como nossas para assim continuarmos este genuíno livro sagrado ao qual damos o nome de Vida.
 
Cara, belo texto. :)
 
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